Carta para Sofia










Querida Sofia,

Precisei distanciar-me de ti para re-encontrar-te. Sabe que há outros destinatários à minha espera. Mas és a escolhida para estas linhas que teço. Te escrevo para fazer-te nascer, expelir-te de mim. Para que me libertes de ti. Não te serei rival nem materna. Faremos um pacto, Sofia, pois há um devir impiedoso entre nós duas. Tentarei ser mais doce que amarga. Digo isso pelo realismo mágico no qual me lançaste, desde que ofereci meu corpo para a experiência do teu romance teatral com E. Pude sentir na pele a crueldade da qual lhes fui cúmplice, pelo tempo-espaço que teria sido pouco, não fosse a intensidade desse afeto, a atmosfera densa que anunciava o nosso encontro, às luzes de uma cena. Devo alertar-te dessa tua inclinação à tragédia e aos dramas passionais. Poderia estar mais próxima de ti, não me estivesse saturado esse assunto, das tramas psicológicas que compõem a microfísica das redes sociais, embora E. proferisse discursos maiores, semeando as violetas do Chile. Compreendo a condição absoluta do amor que vos une e aprisiona. Não te deixes cair com um beijo, Sofia! Não sejas refém do teu temor em partir. Não te curves, nem te lances ao chão de tirânicos amores. A máscara do oprimido já não cabe no teu rosto, ainda que carregasses no ventre o peso da humanidade que, por fim, te abandona. Honra o nome que te deram, Sofia, ou crucificarão o teu corpo. Devolveste-me a solidão, não te sou grata por isso, ela será uma confidente discreta.

Carta escrita para a minha personagem encenada no espetáculo Esquizofrenia, com o diretor chileno René Escalonas, no Teatro Carlos Jehovah, Vitória da Conquista-BA, 2013.

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