Finos Trapos


Finos Relatos1
sobre a experiência com o grupo Finos Trapos


Escrever sobre uma experiência vivida há 5 anos, requer um pouco de memória inventada. Então convoco o imaginário criativo para relatar minha participação no oficinão Finos Trapos, em Vitória da Conquista-BA, 2008. Apesar do verão sertanejo, eram frias as noites em que íamos para a sala polivalente do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, participar das atividades. Mas o desejo dos nossos corpos se sobressaía às condições climáticas. O trabalho desse grupo baiano de teatro já era reconhecido na cidade, e pude apreciar a qualidade cênica em seus corpos, cores, e sons, no espetáculo O Auto da Gamela, de temática e estética regional, bem como no compartilhamento do saber teatral em suas oficinas. Nossos encontros eram marcados por um surdo, que fazia bum-bum, frequentemente utilizado para sinalizar o momento das nossas ações, na sala de criação e ensaio.
Em uma dos nossos encontros, me lembro de ter feito uma pequena cena no chão, chamada Expansão: a liberdade de ser. Tratava-se de uma sementinha que queria ser. Bom, eu ainda não havia desconstruído a metafísica, andava em uma busca existencialista de ser. Fiz esse exercício deitada no chão, de olhos fechados, braços e pernas abertas, como uma estrela-do-mar. A sementinha se movimentava para um lado e para outro, até nascer em forma de atriz.

EXPANSÃO: A LIBERDADE DE SER

eu que era, a princípio,
uma sementinha
tão pequena

mas acontece que uma semente
em terra fértil

foi então, que um dia
veio a chuva
e me molhou

(pausa/movimentos corporais)

e então, um impulso, me brotou
(movimento de criação)

e virei homem
e virei águia
e virei flor

e virei pedra
e virei pluma

e virei, de repente
tudo o que sou

O que havia de mais singular no oficinão do Finos Trapos era a metodologia colaborativa aplicada pelo grupo, que na época era uma novidade para mim, ao menos na área do teatro, embora fosse comum no campo da cultura digital, que também atravessava a minha formação naquela época. Então parecia um método diferente e contemporâneo de se trabalhar. Assim, o roteiro do espetáculo que apresentamos como resultado do oficinão foi produzido a partir de cenas e textos produzidos pelos participantes durante um mês de trabalho, intitulado Escravos de Jó: Fragmentos de um discurso, pedacinhos da nossa subjetividade polifônica esculpida pelo grupo.
Para a composição do roteiro, produzi um pequeno texto encenado atrás de uma tela branca onde era projetada uma luz, de modo a realçar os contornos e movimentos do meu corpo. Investi em uma dramaturgia corporal estranha, com variação da minha voz habitual, em um tom alto e agudo. Esse texto pertencia a uma anônima em busca do nome mais evocado do espetáculo, Jó, cuja ausência em cena, apesar da presença no título do espetáculo, revelava, possivelmente, a crise da identidade característica dos nossos tempos, refletida em nossa produção estética.

Andam a perguntar aos ares quem é JÓ.
Mas...
(refletindo)
Será JÓ o que ele é ou o que pensamos que ele seja?
Imagino, cá eu, que JÓ seja um de nós.
(refletindo)
Ou... Talvez sejamos todos nós
Um mesmo JÓ?
(convicta)
Sim! Deve haver entre nós um JÓ comum. Um que somos sem saber que somos mesmo; um que sonhamos um dia alcançar a ser; e um que somos a todo instante, ou sem querer.
(sai refletindo sobre o que falou)

No roteiro do espetáculo, o subtexto para essa cena era 'uma anônima com movimentos cortados'. É possível que o meu corpo já anunciasse, em um espaço para livre composição cênica, uma fragmentação estética, que se acentuou com o decorrer do tempo, em minhas expressões artísticas. O fato, é que essa fragmentação foi incorporada ao espetáculo sem nenhuma objeção no sentido de produzir uma narrativa contínua. Penso que a postura do então diretor do espetáculo, Roberto de Abreu, de compor essa diferença em uma produção colaborativa, faz jus aos fragmentos que deram nome ao espetáculo, e que traduz, afinal, uma nossa condição contemporânea, de desconstruções e desvios.
A mímica corporal dramática foi bastante utilizada no espetáculo que apresentamos no Teatro Carlos Geová, bem como a presença de músicas instrumentais. Sons produzidos com o nosso corpo, como mastigações, palmas, estalos de dedos foram utilizados, produzindo constantes interferências no logocentrismo característico do teatro tradicional, tal como desejava Antonin Artaud, em dimensões extremas.
O Carlos Geová, espaço público sob direção da prefeitura, é um pequeno teatro de arena. Além dessa característica, que favorece a aproximação dos artistas com o público, de modo a romper com a estrutura do teatro italiano, em que os atores se apresentam em um pedestal, com um distanciamento físico considerável da plateia, houve um deslocamento dos lugares habituais ocupados por ambas as partes. Assim, o público ficava no centro da arena, e os atores distribuídos ao redor, nas escadas em forma de círculo.
Ao final do oficinão, o roteiro produzido colaborativamente tratava do processo de criação do ator, do seu drama social ou individual, poeticamente trabalhado para compartilhamento com o público, em uma perspectiva estética. Se os artistas, de forma geral, possuem uma sensibilidade aguçada, essa característica se sobressai na expressão quase sempre dramática dos atores, em sua atuação no mundo. Lapidar esse drama é fundamental para não sobrecarregar tanto o cotidiano com os nossos dramas habituais. Não os levem tão a sério, somos crianças que choram ou riem com bastante facilidade e em curtos intervalos de tempo. Isso ficou claro para mim quando vi um filme que me tocou bastante, e que certamente influenciou em minha escolha pelas artes cênicas, Depois do Ensaio, de Ingmar Bergman. O filme encena uma calorosa discussão entre uma atriz e seu diretor de teatro, que a acusa do desejo de um drama passional. Para além da reprodução analítica historicamente dicotômica e hierárquica, da relação atriz-diretor, mulher-homem, sensibilidade-razão, creio que a arte alcança uma dimensão insuspeitável quando produzida com uma forte carga de paixão ou afeto, independente da função, classe, ou gênero do artista ou da obra. A técnica vem a compor esse impulso criativo, e é preciso tomar cuidado para que o mercado cultural não aprisione a intensidade dos artistas em formas seriadas, reproduzindo a opressão capitalista à nossa sensibilidade.
A produção dos figurinos foi também colaborativa, fomos instruídos a compor uma cena em tons de terra. Essas composições variavam conforme o desejo e a criatividade de cada ator, e ao fim obtivemos uma unidade fragmentada, que variava entre o marrom, o bege, o caqui, e cores afins. A meia calça na cabeça, um acessório comum aos atores em cena, parece ser uma caraterística visual dos Finos Trapos.
Além da estética que produzimos, singular porque plural, tivemos, também, através do oficinão, uma formação que envolvia não apenas as técnicas de corpo e de interpretação, mas uma abordagem que transitava entre a teoria, a metodologia, a cenografia, e a produção cultural. Acessamos, por exemplo, a poética política de Augusto Boal, e a experimentação do Teatro da Vertigem, duas importantes referências no teatro brasileiro.
O oficinão, que vem sendo realizado pelos Finos Trapos em outras cidades do interior da Bahia, com financiamento do Estado, é um importante trabalho de formação cênica, não apenas através de um instrumental técnico-teórico, mas também de encontros a partir dos quais reverberam outras produções, como esse pequeno relato feito para compor uma escrita ainda insipiente sobre as artes, no Brasil, que ultrapassa, nesse caso, os meios de produção e circulação acadêmica, visando outros espaços e discursos. 
 
1Publicado no livro Oficinão Finos Trapos - Uma Pedagogia do Teatro de Grupo em Cinco Cidades

Baianas. Salvador : EGBA, 2014.

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