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CRÔNICA DE UM CRÍTICO SEVERO

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“Você não é nenhuma Cora Coralina”, disse um leitor do meu novo livro publicado, Epístolas Profanas. Seguiu dizendo que meu texto era muito pessoal, mas que, apesar disso, a leitura era gostosa. Disse, ainda, que escrever sobre os próprios processos artísticos era narcisismo, que outra pessoa deveria fazer isso, quem sabe um crítico mais generoso. “Você não acha que escrevendo a partir da própria experiência, podemos atravessar questões universais?” Perguntei, esperançosamente. “Muitos tentam, mas meu conceito de universal é elevado”. “E não seria a própria natureza humana universal?” Insisti mais uma vez naquele diálogo, mas não lembro da sua resposta. Fiquei olhando para o sujeito que falava, além do discurso: um homem branco, cientista da natureza, oriundo do Sudeste. Lembrei das vezes em que ele parecia estar querendo me dar aulas sobre teatro e literatura, linguagens nas quais não apenas me profissionalizei, como sou pós-graduada. Lembrei de quando era uma atriz apaixonada pela fi...

KUNDALINI

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  serpente sagrada atravessa bem e mal  chi e tao  corpo e alma espiral Morgana Poiesis 2026

CARTA PARA O VELHO CHICO

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Querido Chico, Cheguei às suas margens desde ontem e cá estou, nesta cidade que você atravessa e guarda em suas curvas. Quando cheguei, fui logo até você, pedir licença para estar aqui e fazer o meu trabalho com sua benção, junto a mulheres ribeirinhas. Mulheres que me inspiram pela tamanha noção de pertencimento e identidade com sua terra. Noção que tantas vezes me falta, eu que sou uma retirante sertaneja, quase sempre em outro lugar, quase sempre so(l)zinha. Confesso que fui tomada por uma onda de melancolia, que se abranda nas conversas com minha anfitriã, Tâmara Rossene, parceira do Mulherio das Letras, que me acolheu em sua casa e em sua cidade. Também retomei minha força ao reler Gloria Anzaldúa, mulher mestiça (chicana) que das fronteiras se remete a nós, escritoras do então chamado Terceiro Mundo. Por fim, sinto-me acalantada ao encontrar essas ribeirinhas que vieram fazer nossa Oficina de Cartas, contando histórias muito parecidas com as que também vivo, como uma mulher do Br...

BAMBOLEAR

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eu bamboleio tu bamboleias nós bamboleamos juntas vamos às ruas às praças aos bailes dos mundanos Morgana Poiesis Fotografia Alva Bernadine #poesia #poema

A DITADURA DA BEZELA E SEU ÔNUS SOCIAL

“Você é bonita! A culpa é sua!” Escutei essas palavras de um colega, ao lhe relatar uma situação de assédio no ambiente profissional, há poucos dias. Este fato me remeteu a uma outra experiência semelhante, que vivi há menos de um ano. Ao voltar a ter contato com o marido de uma tia, contra a minha vontade, em ambiente familiar, acabei trazendo à tona os abusos sexuais perpetrados por ele contra mim, ainda na adolescência. Na ocasião, passei por tudo o que acontece quando uma mulher é levada a fazer esse tipo de denúncia: fui exposta e julgada pelas próprias tias como mentirosa e difamadora, o que de uma certa forma já era esperado. O que mais me chocou, no entanto, ainda estava por vir. Ao perguntar para a minha irmã se ela teria passado pela mesma situação, uma vez que chegou a morar na casa do abusador, ela respondeu que com ela não havia acontecido nada, acrescentando como argumento “eu nunca fui bonita... nunca fui interessante...”. Escutá-la foi como receber, mais uma vez, a se...

CARTA PARA VITÓRIA

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  Querida Vitória Estou de volta aos seus braços secos, atravessando suas ruas cada vez mais longas e planas, houve um tempo em que brincávamos de roda e nos pintávamos com urucum, não sei o que sinto além do que penso sobre o eterno retorno que não quero admitir, já te abandonei outras vezes e voltei para ti, como uma filha bastarda que não finge te amar, nada na vida conseguiu me reter senão esse vínculo que você me encabresta, você me parece tão burguesa, evangélica e pálida, você me conta as histórias que eu gostaria de esquecer, me olha como se pudesse saber quem sou, como se conhecesse meu passado vadio, é sempre a mesma labuta contra o mercado imobiliário que você me impõe, crescendo em cubos verticais, vangloriando-se de um suposto desenvolvimento em que não creio, não, não creio, é a mesma elite que te guarda, os genocidas que te batizaram o nome, não, não me calo, teremos que nos engolir uma a outra, e vou te morder, querida, não sou diplomata, você n...

envieZado

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  confundiram como mudez o meu silêncio como performance minha realidade como paralisia minha lentidão confundiram como disponibilidade o meu ócio como eternidade minha permanência como abnegação meu nomadismo confundiram como abdicação o meu amor como falsificação minha empatia como servidão minha lealdade confundiram como ameaça minha força como desafio minha competência como interferência minha colaboração confundiram como letramento minha inteligência como soberba minha assertividade como prepotência minha autoconfiança confundiram como atrevimento minha insubmissão como ressentimento minha indignação como terrorismo minha radicalidade confundiram como tolice minha generosidade como neutralidade meu pacifismo como dopamina minha serenidade confundiram como ingenuidade minha franqueza co...