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CARTA PARA VITÓRIA

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  Querida Vitória Estou de volta aos seus braços secos, atravessando suas ruas cada vez mais longas e planas, houve um tempo em que brincávamos de roda e nos pintávamos com urucum, não sei o que sinto além do que penso sobre o eterno retorno que não quero admitir, já te abandonei outras vezes e voltei para ti, como uma filha bastarda que não finge te amar, nada na vida conseguiu me reter senão esse vínculo que você me encabresta, você me parece tão burguesa, evangélica e pálida, você me conta as histórias que eu gostaria de esquecer, me olha como se pudesse saber quem sou, como se conhecesse meu passado vadio, é sempre a mesma labuta contra o mercado imobiliário que você me impõe, crescendo em cubos verticais, vangloriando-se de um suposto desenvolvimento em que não creio, não, não creio, é a mesma elite que te guarda, os genocidas que te batizaram o nome, não, não me calo, teremos que nos engolir uma a outra, e vou te morder, querida, não sou diplomata, você n...

envieZado

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  confundiram como mudez o meu silêncio como performance minha realidade como paralisia minha lentidão confundiram como disponibilidade o meu ócio como eternidade minha permanência como abnegação meu nomadismo confundiram como abdicação o meu amor como falsificação minha empatia como servidão minha lealdade confundiram como ameaça minha força como desafio minha competência como interferência minha colaboração confundiram como letramento minha inteligência como soberba minha assertividade como prepotência minha autoconfiança confundiram como atrevimento minha insubmissão como ressentimento minha indignação como terrorismo minha radicalidade confundiram como tolice minha generosidade como neutralidade meu pacifismo como dopamina minha serenidade confundiram como ingenuidade minha franqueza co...

BREVIÁRIO DE UMA ARTISTA DO CORPO

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  - cuidar-se, antes, durante e depois das performances - respirar profundamente - permitir-se estar em pausa consciente - perceber-se em silêncio, até que tudo ao redor não passe de um ruído branco - fazer com as palavras apenas o que não for possível dizer com os gestos - inscrever na realidade objetiva um discurso radicalmente pragmático - agir diretamente em meio a ideais e alienações - concentrar-se absolutamente no que está sendo feito - relacionar-se com as interferências da melhor maneira - observar as memórias manifestas - beber de fontes diversas e ser grata às fontes em que bebeu - desenvolver um método de treinamento pessoal - não se subordinar aos regimes de produção em série - ser sujeita do próprio corpo - não deixar-se objetificar pelo mercado cultural, pela pesquisa acadêmica ou por qualquer estrutura binária do capitalismo patriarcal - superar padrões de estética, comportamento e consumo - investigar as potências motoras no espaço e no tempo - ir além do erotismo,...

FITA AMARELA

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O bloco Fita Amarela surgiu em 2011, como uma iniciativa de amigas(es)(os) e artistas que desejavam celebrar o carnaval, então inexistente em Vitória da Conquista - BA. Idealizado por Morgana Poiesis, com forte apoio de Juliana Leite, que lhe batizou o nome inspirado em música homônima de Noel Rosa, o bloco reuniu foliãs e foliões de forma espontânea, através de uma nota no Facebook, convocando as pessoas que desejassem participar a irem fantasiadas para uma concentração na Praça do Gil, naquele domingo de carnaval. Com um pequeno carro de som, instrumentos musicais, confetes, serpentinas e fantasias variadas, o bloco partiu em cortejo carnavalesco até a Praça Barão do Rio Branco. O bloco Fita Amarela emergiu como uma ação autônoma, uma forma alegre e criativa de resistir na cidade. Articulado através das redes sociais e efetivado pragmaticamente nas ruas, o bloco se configurou como um movimento coletivo de ocupação lúdica do espaço urbano, sendo o estopim para o surgimento de outros...

Ser Tão

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levei uma rasteira do patriarcado e quem não? fiquei marcada como Rosa  da poesia como o braço quebrado de Maria na serra do Periperi cabecinhas de frade espetaram meu coração e cá estou eu como num deserto flor do Ser Tão Morgana Poiesis, 2026.

DIALÉTICA

a vida é assim hoje diz que não amanhã diz que sim hoje é sua amiga amanhã te faz figa hoje tem quem ama amanhã Pachamama hoje é fiel amanhã lua de fel sigo minha sina se não for lá embaixo será logo ali acima Morgana Poiesis, 2026

AMOR E LIBERDADE: uma breve reflexão

Pensei em nomear este texto com o “amor livre”, tão aclamado na contemporaneidade. No entanto, essa composição me parece inviável, pois não somos assim tão amorosos, tampouco libertários. Aliás, eu que sempre busquei referências para uma liberdade mais prática do que discursiva, ao menos na filosofia ocidental, só a encontrei enquanto atitudes eminentemente individuais. Ainda carecemos de uma perspectiva social libertadora, cujas nuances têm sido desveladas pelas epistemologias decoloniais. Nos últimos anos, tenho me deparado com reiteradas propostas de “relacionamentos abertos”, atualmente denominados “não monogâmicos”, de modo que precisei sistematizar minha resposta. Eu já fui uma adepta do “amor livre”, aos vinte anos, quando esse debate não estava em voga. E mesmo sendo previamente acordado, tive como retorno um discurso de ódio propagado contra mim aos quatro cantos do país, pelo mesmo homem que me fez essa proposta, diga-se, um ativista de e...