AMOR E LIBERDADE: uma breve reflexão

Pensei em nomear este texto com o “amor livre”, tão aclamado na contemporaneidade. No entanto, essa composição me parece inviável, pois não somos assim tão amorosos, tampouco libertários. Aliás, eu que sempre busquei referências para uma liberdade mais prática do que discursiva, ao menos na filosofia ocidental, só a encontrei enquanto atitudes eminentemente individuais. Ainda carecemos de uma perspectiva social libertadora, cujas nuances têm sido desveladas pelas epistemologias decoloniais.

Nos últimos anos, tenho me deparado com reiteradas propostas de “relacionamentos abertos”, atualmente denominados “não monogâmicos”, de modo que precisei sistematizar minha resposta.

Eu já fui uma adepta do “amor livre”, aos vinte anos, quando esse debate não estava em voga. E mesmo sendo previamente acordado, tive como retorno um discurso de ódio propagado contra mim aos quatro cantos do país, pelo mesmo homem que me fez essa proposta, diga-se, um ativista de esquerda, fortemente ressentido. Estou me referindo a décadas atrás, quando o discurso da “ex louca” era facilmente aderido pela sociedade misógina e patriarcal. Não se trata de uma violência moral que vivenciei no passado, mas de um estigma social que até hoje me persegue, comprometendo minha vida relacional e profissional, desde então, posto que éramos da mesmo área. Também fui socialmente aprisionada no rótulo de “mulher livre”, que toparia tudo, enquanto aprendia que a liberdade implicava, sobretudo, em saber dizer NÃO!

Concluí, ainda na minha juventude, que o direito à liberdade individual não pode ser plenamente exercido na sociedade heteronormativa, enquanto não houver equidade de gênero. As experiências que tive apenas evidenciaram as opressões, intimamente reproduzidas e socialmente perpetuadas, no meio mais alternativo em que vivíamos.

Sobre os acordos de exclusividade sexual, não tenho muito o que colocar. Penso que cada pessoa é responsável pelo corpo que tem e pelo exercício de sua autonomia. Mas poderia pontuar três questões que concorrem para minha atual e reiterada postura evitativa.

Começaria pela falta de franqueza, que parece ser uma característica inerente a quase todas as relações humanas, independente de sua natureza. Em interações que demandariam muito mais cuidado e dialogicidade, como compreender um outro que é incapaz de ser franco, até mesmo, consigo próprio? Esse é o impasse relacional com o qual me deparo muitas vezes, inclusive nas amizades. Na sociedade em que vivemos, especialmente na cordial brasileira, a dissimulação é tão corriqueira, que a sinceridade genuína passa a ser mais um traço de personalidade atípica, do que uma postura ética, ou, até mesmo, uma virtude.

Poderia citar, também, a falta de educação emocional dos homens cis-héteros, que tem se manifestado em forma de vitimização diante dessas novas configurações relacionais, acompanhada pela culpabilização histórica das mulheres. Enquanto o modelo conservador de família, herdado pela burguesia cristã europeia, esteve baseado no privilégio da poligamia masculina, admitida pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, agora lidamos com uma inegável crise da masculinidade universal, diante da emancipação afetivo-sexual das mulheres e dos gêneros dissidentes. Não poderia deixar de mencionar, nesse contexto, o aumento dos feminicídios, motivados, em sua maioria, pela possessividade e orgulho masculinos, cuja dominação está profundamente enraizada na cultura patriarcal.

O terceiro ponto é a resistência generalizada ao uso de preservativos, mesmo em relações casuais. Para minha surpresa, essa resistência não é apenas por parte dos homens. Nas diversas vezes em que conversei com mulheres sobre os preservativos femininos, ainda pouco populares em nosso país, encontrei a mesma indisposição. Esclareço que não estou atribuindo às relações monogâmicas nenhuma garantia de saúde sexual, sabemos o quanto as mulheres casadas foram adoecidas pela confiança irrestrita a seus cônjuges, ao longo do tempo.

Penso que cada casal é livre para escolher o tipo de relação que gostaria ter, desde que as pessoas envolvidas estejam conscientes e dispostas, o que nem sempre acontece. O que mais vejo são histórias mal contadas, silêncios convenientes e aberturas à fórceps, como forma de manutenção relacional a qualquer custo, ou, até mesmo, de revidação moral. Nesse jogo de forças, o que era parceria se torna disputa íntima, em relações consideradas amorosas.

Outro aspecto relacional cis-hétero bastante problemático é aquele apontado pela psicóloga guarani Geni Núñes, sobre a indissolubilidade do vínculo, idealizado pelo amor romântico e legitimado pelas instituições jurídicas, até o final do século XX. A eternização compulsória das relações acaba por anular a dinâmica vital dos afetos, dos desejos, dos encontros. Não precisa ser para sempre, como nos contos de fadas, basta que seja bom enquanto dure, o que já implica uma maestria relacional, ainda que não validada socialmente ou, até mesmo, institucionalmente.

Por fim, encontrei nessa pensadora uma forte ressonância com o que tenho pensado. É preciso, sim, decolonizar a monocultura dos afetos, o que não implica, necessariamente, em uma policultura sexual. Na sociedade heteronormativa em que vivemos, a descentralização afetiva é crucial para a libertação, sobretudo, das mulheres, socialmente condicionadas a terem suas vidas girando quase que exclusivamente ao redor de um parceiro e suas demandas prioritárias. Penso que, se formos capazes de construir um território seguro para que possamos, estando em uma relação, expressar amor por um amigo, admiração por um colega, conversar com um vizinho, viajar ou, até mesmo, cultivar alguma dose de solitude, sem sermos subliminares ou explicitamente punidas, já seria um grande passo evolutivo. Ressalto que essas interdições sociais não são colocadas apenas pelos parceiros, dentro de uma relação. Acontece, cotidianamente, com mulheres solos, muitas vezes constrangidas ao frequentar espaços sociais dominados por esse modelo cis-hetero-normativo hegemônico, quando não tacitamente excluídas. Nesse sentido, a opção por outras formas de amar não é apenas uma escolha individual, mas uma (re)construção coletiva, para que possamos existir de forma independente, sem que isso pareça uma ameaça à estrutura patriarcal sustentada por homens e mulheres que lhe são convenientemente aliadas. Penso que, apesar da emancipação feminina que, não nos enganemos, é mais simbólica do que estrutural, ainda estamos muito distantes de uma perspectiva social libertária para os gêneros e sexualidades diversas, o que compromete, em última instância, a materialização das utópicas ideologias de amores multilaterais.

Morgana Poiesis, 2026.

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