IV CARTA A LA ABUELA
Vó,
então… vovô partiu… e fico me perguntando se ele foi ao seu encontro, a quem tanto chamava em seu leito de morte-vida-morte… Será que, no final de tudo, viramos constelações?
Desejo que descansem em paz, o que nunca tivemos aqui na Terra. Como de nada sabemos, e eu ainda em pouco acredito, só nos resta mesmo aceitar. Até porque duas vidas tão bem vividas, o que mais merecem é ser descansadas. Nos resta também conduzir nosso legado com sabedoria, o que me parece improvável.
Vó, naquele domingo despertei às 4h da madrugada, o horário dos espíritos, dizem os religiosos, o horário dos deprimidos, dizem os cientistas. Para mim é o horário de acordar junto com os pássaros. Chovia e saí fugindo dos fantasmas da noite. Mas o tempo não me deixou seguir adiante, voltei para casa, resfriada e sem o celular, que de tão molhado quanto eu, ficou afogado dentro do arroz, uma técnica infalível.
No dia seguinte tive notícias do mundo e soube de tudo. É verdade que a melancolia me tocou serenamente, embora não precisasse. Não soube como ritualizar algo tão íntimo, senão com meditações silenciosas, e através desta carta que agora te escrevo, vó. Quem mais poderia me escutar? Eu que nunca soube falar, senão por escrito, ou em cenas bastante específicas, onde não sou mais eu.
Havia um vazio naquele domingo, que não era pela noite sobressaltada, pela chuva na estrada, pelo celular perdido. Quem estava ao meu lado, jamais se compadeceria. Recebi algumas palavras de conforto do único grupo que, neste momento da vida, consigo pertencer. Pertencer, verbo transitivo indireto, que portanto me atravessa de todos os lados. Sou capaz de pertencer tanto ao mundo quanto a mim mesma, vó, como é que vão entender isso?
A família parece querer me punir por um silêncio de eras. Especialmente os mais tóxicos. Mas, vó, nem mesmo o silêncio se constrói sozinha, há sempre uma via de mão dupla, ainda que o que venha da outra direção seja o grito, o julgamento, a exclusão. E como não me encaixo em um banco de réus, me resta também a liberdade de expressão, que não nos foi ensinada dentro casa. É ela que me cura, por um caminho que, em última instância, só caberia a mim descobrir. Sou grata pelo tempo que o Cronos não nos dá. Ele irá nos ensinar o que você já sabia.
Vó, por aqui estou cada vez mais distante de todo e qualquer status social projetado sobre o meu atrevimento de existir. Mas esta carta não é para falar de mim, e sim, para me despedir. Prometi que te escreveria um livro de afetos, memórias, histórias que nunca contei. Mas abdiquei dessa pretensão literária. Quero que seja a mais pura abuelita que levo comigo, a luz que acendo todas as noites, antes de dormir.
Com amor,
sua neta.
m.
(Cerrado de Gaia, véspera de Carnaval)

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