CARTA PARA VITÓRIA
Querida Vitória
Estou de volta aos seus braços secos, atravessando suas ruas cada vez mais longas e planas, houve um tempo em que brincávamos de roda e nos pintávamos com urucum, não sei o que sinto além do que penso sobre o eterno retorno que não quero admitir, já te abandonei outras vezes e voltei para ti, como uma filha bastarda que não finge te amar, nada na vida conseguiu me reter senão esse vínculo que você me encabresta, você me parece tão burguesa, evangélica e pálida, você me conta as histórias que eu gostaria de esquecer, me olha como se pudesse saber quem sou, como se conhecesse meu passado vadio, é sempre a mesma labuta contra o mercado imobiliário que você me impõe, crescendo em cubos verticais, vangloriando-se de um suposto desenvolvimento em que não creio, não, não creio, é a mesma elite que te guarda, os genocidas que te batizaram o nome, não, não me calo, teremos que nos engolir uma a outra, e vou te morder, querida, não sou diplomata, você não me traz perspectiva alguma senão a solidão e a burocracia do trabalho, sim, você me deu amigos e eles me beijam a face, há também os que me odeiam e os que me tomam por louca, não, não te odeio, sou apenas uma hóspede ingrata, vou reverenciar o seu crepúsculo dourado, caminharei por entre o vazio dos seus bosques de eucaliptos e flores ornamentais, você não sabe o que é rio, nem mar, nem floresta, nem carnaval, você me seduz com a poesia, o cinema e a ópera, você é uma sertaneja erudita, gosto da sua diferença, Vitória, você não se faz refém do Estado, mas venho do samba e dos orixás, como aquecer seu corpo frio?
Morgana Poiesis, 2013-2016.

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