A DITADURA DA BEZELA E SEU ÔNUS SOCIAL
“Você é bonita! A culpa é sua!” Escutei essas palavras de um colega, ao lhe relatar uma situação de assédio no ambiente profissional, há poucos dias. Este fato me remeteu a uma outra experiência semelhante, que vivi há menos de um ano. Ao voltar a ter contato com o marido de uma tia, contra a minha vontade, em ambiente familiar, acabei trazendo à tona os abusos sexuais perpetrados por ele contra mim, ainda na adolescência. Na ocasião, passei por tudo o que acontece quando uma mulher é levada a fazer esse tipo de denúncia: fui exposta e julgada pelas próprias tias como mentirosa e difamadora, o que de uma certa forma já era esperado. O que mais me chocou, no entanto, ainda estava por vir. Ao perguntar para a minha irmã se ela teria passado pela mesma situação, uma vez que chegou a morar na casa do abusador, ela respondeu que com ela não havia acontecido nada, acrescentando como argumento “eu nunca fui bonita... nunca fui interessante...”. Escutá-la foi como receber, mais uma vez, a sentença de que a culpa da mulher assediada, abusada, estuprada, assassinada é dela mesma e não dos criminosos. Escutei isso de uma mulher que, além de ser minha própria irmã, é professora universitária, assim como o colega que citei no início do texto. Ambos os fatos, além de me revitimizarem, eu que não sou vitimista, me levaram a refletir sobre a beleza como ditadura e ônus para as mulheres, na sociedade patriarcal. A exigência de corresponder aos padrões estéticos, que nos acompanha desde meninas até a vida adulta, também é atirada contra nós, na primeira oportunidade. Talvez por isso tenha feito o caminho inverso da maioria das mulheres, em toda minha vida: tentei, por conta própria, me invisibilizar, ainda que de forma inconsciente: fiquei corcunda até sofrer de dores como agora, rapei a cabeça, diminuí meu tom de voz até desenvolver uma disfonia vocal diagnosticada em consultório médico, vesti roupas largas, me privei do convívio familiar e comunitário, fiz de tudo para ser menos bonita, menos feminina, menos atraente para os padrões sociais. Certamente esse não era o melhor caminho. No entanto, passadas quatro décadas de vida, e a despeito do letramento de gênero ao qual me propus, ainda me encontro em um beco sem saída: sou apenas uma mulher, culpada por existir.
Morgana Poiesis, 2026.
A culpabilização da mulher como justificativa para as práticas misóginas. Em todo caso: invisíveis e caladas.
ResponderExcluirObrigada pela partilha, Kelly.
ExcluirA culpa é nossa, dos homens. Somos nós os artífices do modelo patriarcal de sociedade e, aliado ao sentimento de posse e propriedade, que transformou as relações interpessoais em relações de domínio, baseadas no consumo l. A mulher, como foi inferiorizada nesse patriarcado, também foi objetificada e transformada em mercadoria de consumo, e como tal, muitas vezes a embalagem é o que chama a atenção de quem quer apenas consumir. Sua reflexão é excelente e daria uma tese de doutorado sobre as várias camadas que podemos identificar. Mas um abusador vai sempre "achar" motivos, que não apenas beleza física.
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