CARTA PARA O VELHO CHICO
Querido Chico,
Cheguei às suas margens desde ontem e cá estou, nesta cidade que você atravessa e guarda em suas curvas. Quando cheguei, fui logo até você, pedir licença para estar aqui e fazer o meu trabalho com sua benção, junto a mulheres ribeirinhas. Mulheres que me inspiram pela tamanha noção de pertencimento e identidade com sua terra. Noção que tantas vezes me falta, eu que sou uma retirante sertaneja, quase sempre em outro lugar, quase sempre so(l)zinha. Confesso que fui tomada por uma onda de melancolia, que se abranda nas conversas com minha anfitriã, Tâmara Rossene, parceira do Mulherio das Letras, que me acolheu em sua casa e em sua cidade. Também retomei minha força ao reler Gloria Anzaldúa, mulher mestiça (chicana) que se remete a nós, escritoras do então chamado Terceiro Mundo. Por fim, sinto-me acalantada ao encontrar essas ribeirinhas que vieram fazer nossa Oficina de Cartas, contando histórias muito parecidas com as que também vivo, como um mulher do Brasil profundo. Sinto que sairei mais fortalecida daqui, do quente ao frio, da simpatia à hostilidade, do Velho Oeste à Suíça Baiana, após cumprir esta missão que me cura e liberta, assim como a tantas outras com quem compartilho esses fazeres, esses saberes, esses criares. Te agradeço por me receber em suas margens, nesta cidade tão rica em cultura, como é nosso país. Fico realmente feliz em ver autoras e autores publicando suas obras, sem precisar sair da sua cidade, como tive que fazer, por muitos anos. Sendo reconhecidas e reconhecidos em seu próprio lugar. Ficarei pouco tempo. Mas levarei sua brisa em meus itinerários, e a lembrança da luz do Sol brilhando em suas águas. Espero poder voltar outras vezes, vontade que só sinto quando sou bem recebida em um lugar. Sonho em ver-te infinito, sábio ancião.
Com reverência,
Morgana Poiesis
Ibotirama-BA, 14 de agosto de 2026.

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