CRÔNICA DE UM CRÍTICO SEVERO


“Você não é nenhuma Cora Coralina”, disse um leitor do meu novo livro publicado, Epístolas Profanas. Seguiu dizendo que meu texto era muito pessoal, mas que, apesar disso, a leitura era gostosa. Disse, ainda, que escrever sobre os próprios processos artísticos era narcisismo, que outra pessoa deveria fazer isso, quem sabe um crítico mais generoso. “Você não acha que escrevendo a partir da própria experiência, podemos atravessar questões universais?” Perguntei, esperançosamente. “Muitos tentam, mas meu conceito de universal é elevado”. “E não seria a própria natureza humana universal?” Insisti mais uma vez naquele diálogo, mas não lembro da sua resposta. Fiquei olhando para o sujeito que falava, além do discurso: um homem branco, cientista da natureza, oriundo do Sudeste. Lembrei das vezes em que ele parecia estar querendo me dar aulas sobre teatro e literatura, linguagens nas quais não apenas me profissionalizei, como sou pós-graduada. Lembrei de quando era uma atriz apaixonada pela filosofia, e um colega me disse que eu escrevia como um homem. Lembrei de quando parecia hermética, até me referir diretamente a um outro, na literatura epistolar. Lembrei de Aninha, que precisou fugir à cavalo, em uma madrugada chuvosa, para poder viver a própria vida e ser reconhecida como Cora Coralina, aos 70 anos de idade, quando publicou sua primeira obra. Lembrei dos seus versos que sussurrei quando estive em sua terra, o que me rendeu uma carta para ela, publicada neste novo livro, em um catálogo de arte feminista e em minha tese de doutorado. Olhei ao redor, estávamos em um bar, eu era a única mulher naquele espaço, além de uma funcionária da cozinha, que já estava encerrando seu expediente. Tomei o meu terceiro e último copo de cerveja, condição daquela companhia. Levantei e me despedi rapidamente. Tenho o dom de deixar algumas pessoas desconcertadas em certas saídas, tamanha é minha vontade de ir embora. Mesmo dali, com alguém que um dia fora um dos meus correspondentes, que poderia até ter me agradecido pela homenagem que lhe fiz em vida, mas preferiu ser apenas um crítico severo.

Morgana Poiesis, 2026.

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