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IV CARTA A LA ABUELA

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  Vó, então… vovô partiu… e fico me perguntando se ele foi ao seu encontro , a quem tanto chamava em seu leito de morte-vida-morte… Será que, no final de tudo, viramos constelações? Desejo que descansem em paz, o que nunca tivemos aqui na Terra. Como de nada sabemos, e eu ainda em pouco acredito, só nos resta mesmo aceitar. Até porque duas vidas tão bem vividas, o que mais merecem é ser descansadas. Nos resta também conduzir nosso legado com sabedoria , o que me parece improvável. Vó, naquele domingo despertei às 4h da madrugada, o horário dos espíritos, dizem os religiosos, o horário dos deprimidos, dizem os cientistas. Para mim é o horário de acordar junto com os pássaros. Chovia e saí fugindo dos fantasmas da noite. Mas o tempo não me deixou seguir adiante, voltei para casa, resfriada e sem o celular, que de tão molhado quanto eu, ficou afogado dentro do arroz, uma técnica infalível. No dia seguinte tive notícias do mundo e soube de tudo....

Somos Naturaleza

Catálogo da mostra Somos Naturaleza, no Festival en mi balcón, produzido pela artista e pesquisadora Anita Araújo, em Buenos Aires, Argentina, 2021. https://somosnaturaleza.my.canva.site/

CAMPO MINADO ou POR QUE ESCREVO PARA MULHERES?

  Muitas vezes sou questionada sobre restringir minhas correspondências às mulheres. Em primeiro lugar, como escritora, sou livre para escolher minhas destinatárias. Mas não foi sempre assim, e venho trazer alguns relatos desse percurso. Quando iniciei meu projeto epistolar, há exatos 10 anos, tive minha primeira carta, declaradamente pública, censurada pelo suposto destinatário. Apesar disso, consciente dos meus propósitos literários, rompi o veto do censor, e resolvi publicá-la como Esquizocarta ou Carta para um Anônimo (que hoje seria Ninguém), dando início ao que se tornaria uma longa caminhada. Outra vez, recebi uma carta de um poeta, destinada a mim, porém, enviada para um amante, com cópia para ele, como se fosse uma petição. Novamente fiquei furiosa ao ter minha autonomia sendo colocada em xeque pelo acordo tácito entre os homens, de que eu poderia ser representada por quem me acompanhava naquele momento. Eventualmente, por questões estritamente profissionais, sou levada a ...

PLACENTA

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  Semana pela luta antimanicomial, Vitória da Conquista-BA, 2014. Mostra de Performance. Galeria Canizares. Salvador-BA, 2014. Link para vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=oNDFTP0lH-A&feature=youtu.be

DIÁRIO DE UMA PÓS-DOUTORANDA

Querido diário, é madrugada e tenho sido despertada por muitos pesadelos. Te escrevo porque, neste momento, não tenho correspondentes. Você sabe que sempre fui uma escritora de diários, até encontrar, na carta, uma outra da outra da outra, ainda que com-fabulada. Não é que você seja nada ou ninguém. Mas todos sabem que escrever em um diário é como se fosse para si mesma. Sei que você vai compreender meu jogo de palavras. Você lembra daquele corredor silencioso, onde fiz a entrevista do pós-doc? Eu estava em uma selva de pedras, com-correndo a dois processos seletivos, ao mesmo tempo. Sim, eu estava desesperada para me libertar de uma condição profissional opressora, ainda que pudesse entrar em outra. Cheguei a fazer um registro em preto e branco daquele tempo-espaço, mas tal lembrança me causava tanta angústia, que a deletei dos meus arquivos, como uma eterna editora de mim mesma. No entanto, aquela imagem me volta constantemente, porque me observar dentro de...

NARRATIVA PARA SYSYPHUS

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Morgana Poiesis e Isaac Souto. Fotografia: George Neri. Salvador-BA, 2022.   Há um ponto em que me coloco absurdamente distante da realidade para poder, ora contemplá-la, ora refleti-la, ora me refletir, mesmo, nela. É quando não apenas me identifico com minha própria vida, mas também a estranho, ou sou eu mesma esse ser que estranhamente vive e questiona o sentido de viver, quando tudo o que é valioso vem depois da necessidade essencial de sobrevivência. Este filme é um ensaio sobre viver para não apenas sobreviver. Sobre o pensamento através da linguagem, e para além dela. Sobre ser humana e existir enquanto tal, donde a arte, a filosofia, a representação simbólica. Ser livre dentro do capitalismo global seria poder escolher o que dele me convém. A ilusão de estar à sua margem não oferece liberdade de escolha. Estamos prisioneiras do liberalismo econômico, e não vislumbramos saída da mais valia, embora confabulemos economias criativas e culturas colaborativas. Embora elogi...

PARA AS ESCRITORAS DO MULHERIO DAS LETRAS: CARTA-CONVITE

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  Leitura da carta no VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras, Rio de Janeiro, 2023. VI Encontro Nacional Mulherio das Letras, Rio de Janeiro, 2023. Caras escritoras, venho, por meio destas mal traçadas linhas, abrir meu processo de pesquisa do pós-doutorado em Estudos da Linguagem, na Universidade Federal do Mato Grosso, por ora intitulada Mulherio das Letras: correspondências. Meu primeiro contato com o Mulherio das Letras aconteceu em uma roda de conversas, com as escritoras de Brasília, na programação oficial da 10ª edição da FliPiri - Festa Literária de Pirenópolis, no interior em Goiás, em 2019. Ao encontrar um coletivo brasileiro de mulheres escritoras que o qualificavam como feminista , senti um forte convite a pertencê-lo. Tendo conhecimento do movimento nacional, passei a acompanhá-lo nas redes sociais, e a publicar minhas produções literárias nos grupos do Facebook. Me chamava a atenção o modo colaborativo como o coletivo se organizava, at...