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I CARTA A LA ABUELA

Vó, há tempos espero para te escrever esta carta. Tudo o que parece ser demasiadamente especial para o ritmo do mundo me exige um silêncio maior, ele mesmo produzido no contratempo necessário. Então, hoje faz sol, chuva, arco-íris e lua cheia, ademais atravesso meu rio vermelho, a vida-morte-vida que me faz renascer a cada ciclo, e me ensina a deixar morrer para fluir a energia vital. A senhora me apareceu em sonho, certa noite É verdade que eu já evocava a sua presença, desde quando me encontrei ferida na clareira de uma floresta, onde te via à minha volta, junto com índias, caboclas, ciganas e curandeiras, em meio aos lapsos de minha lucidez. Desde que a senhora se foi, apenas a reconstituição da sua presença me conforta. Diria que te sinto mais presente agora, quando não há uma realidade geográfica entre nós duas, superada, portanto, essa materialidade implacável . Como se antes a senhora estivesse sempre longe, no seu lugar, e agora estivesse sempre p...

III CARTA A LA ABUELA

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  Vó, encontrei uma pausa no mundo, da qual faço o bom uso ao te escrever esta carta. Estive em sua casa, que está cada vez mais vazia. Ao mesmo tempo, são tantas as visitas surpresas, comadres, parentes e toda sorte de bichos que sobrevivem no bioma ao redor, a Caatinga. Vovô vive-morre-vive devagar, deitado na cama. Seu corpo está cada vez mais frágil, embora manifeste uma presença de espírito. Mal podemos tocá-lo, ele grita. Viver dói mesmo, vó, desde quando nascemos, até a morte. E o rio também agoniza, logo ali… ao lado da casa… por que será que ninguém mais vê aquele rio, vó? Ele me aparece em sonhos, pedindo socorro. Noutras vezes, convidando a esconder-me por entre as memórias de um outro tempo. No pátio nascem as rosas, além do pomar que resiste por entre os espinhos, ao fundo do terreiro, onde me perco das vistas. Mas é na cozinha, onde às vezes ainda me nutro, que encontro a senhora, olhando ao infinito da janela, me dand...

II CARTA A LA ABUELA

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  Vó, está terminando o ano e não poderia deixá-lo ir sem te escrever esta segunda carta. Há exatamente um ano, havia te escrito uma primeira, pouco depois da sua partida. Agora consigo ter um distanciamento claro de quem eu era naquele momento, daquela que morreu no ano passado, mas que, neste ano, não morre mais. Ainda bem que temos a música popular brasileira, não é, vó? A vontade de te escrever continuou, até que encontrei o livro Cartas para minha avó , da jornalista e filósofa brasileira Djamila Ribeiro, uma referência no feminismo contemporâneo, que muito me inspirou, me estimulando a prosseguir com essas cartas para a senhora. Te escrever é profundamente terapêutico para mim, sinto que somente agora poderia fazê-lo. Não é porque a senhora jamais leria as minhas cartas em vida, já que não acessou o direito de saber ler, nessa língua colonizada, vó, mas porque agora posso te contar algumas coisas, memórias que latejam no corpo-mente de u...

INFINITAS AURORAS

  na eternidade contida em cada instante tardes que embalam tardes limiares efêmeros de felicidade só pra quem entendeu a alegria conta-gotas de poesia força que nasce trêmula enrijecidas entranhas esquece-te as rimas faze do próprio calor o teu berço do próprio colo a tua entrega desnuda-te menos e voa por onde tantas vezes plainaste infinitas auroras liberdades outroras mas no gene injetaram-te memória antigas páginas de história que te acompanham caminhas em silêncio brando e não grites não ensurdeças teus próximos a quem olhas sê ciente em tua loucura não te embriagues tanto não delires não transbordes do cálice veneno sagrado confiaram-te a fórmula mas não contaram-te o segredo tapa teus ouvidos e não ouças tais vozes ignore-as faze do que vês solitárias estrelas constelações imaginárias mundos afora nos quais transitas mas não moras sequer tens pátria anjo profano pecas habitas o mun...

PALAVRA SOPRADA

  não tenho pudores dos versos proibidos das palavras roubadas do que os olhos não veem também não lastimo as veias estouradas as pálpebras trêmulas a falta de ar era noite, então à sombra de uma melodia fina e minúsculos prazeres me espreitavam não pouparei nenhuma pétala ferida todo o suor derramado nem mesmo o grito colérico o estado febril o pavor de quem ama por certo gozarei ao sabor do pecado se quer queimarei os papéis rabiscados não me supliqueis o último juramento! contentai-vos com certas expressões balbuciadas nascidas em um tempo muito antigo do qual já nem eu tenho memória e perdoai nelas qualquer dose de pura intensidade força, desejo, crueldade sopro, palavra soprada

CÂNTICO DA ORQUÍDEA DE LUZ

  respira escuta o que a vida te guarda o cântico da madrugada as noites outrora medrosas despertam ao sol matutino que espia a janela do sono respira e cala o que te impressiona amansa o que te extrapola a chama já não mais te queima as manhãs arrebatadas se foram a fúria de paixões antigas adormece à voz do silêncio à sábia lição do passado o sopro não mais te suplica curvado à serena memória do estar e do ser passageiro a dor dissolvida em descanso o corpo espantado amolece a lascívia clamava ternura de olhos e beijo na testa acolhe no peito a maldade as sombras pintadas de branco sublima o veneno do mundo em aromas de cor e fumaça sê plena Orquídea de Luz!

POEMA PARA HILDA HILST

fornica tu fornique ela fornicamos nós fornicai vós forniquem elas   Morgana Poiesis