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CAMPO MINADO ou POR QUE ESCREVO PARA MULHERES?

  Muitas vezes sou questionada sobre restringir minhas correspondências às mulheres. Em primeiro lugar, como escritora, sou livre para escolher minhas destinatárias. Mas não foi sempre assim, e venho trazer alguns relatos desse percurso. Quando iniciei meu projeto epistolar, há exatos 10 anos, tive minha primeira carta, declaradamente pública, censurada pelo suposto destinatário. Apesar disso, consciente dos meus propósitos literários, rompi o veto do censor, e resolvi publicá-la como Esquizocarta ou Carta para um Anônimo (que hoje seria Ninguém), dando início ao que se tornaria uma longa caminhada. Outra vez, recebi uma carta de um poeta, destinada a mim, porém, enviada para um amante, com cópia para ele, como se fosse uma petição. Novamente fiquei furiosa ao ter minha autonomia sendo colocada em xeque pelo acordo tácito entre os homens, de que eu poderia ser representada por quem me acompanhava naquele momento. Eventualmente, por questões estritamente profissionais, sou levada a ...

PLACENTA

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  Semana pela luta antimanicomial, Vitória da Conquista-BA, 2014. Mostra de Performance. Galeria Canizares. Salvador-BA, 2014. Link para vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=oNDFTP0lH-A&feature=youtu.be

DIÁRIO DE UMA PÓS-DOUTORANDA

Querido diário, é madrugada e tenho sido despertada por muitos pesadelos. Te escrevo porque, neste momento, não tenho correspondentes. Você sabe que sempre fui uma escritora de diários, até encontrar, na carta, uma outra da outra da outra, ainda que com-fabulada. Não é que você seja nada ou ninguém. Mas todos sabem que escrever em um diário é como se fosse para si mesma. Sei que você vai compreender meu jogo de palavras. Você lembra daquele corredor silencioso, onde fiz a entrevista do pós-doc? Eu estava em uma selva de pedras, com-correndo a dois processos seletivos, ao mesmo tempo. Sim, eu estava desesperada para me libertar de uma condição profissional opressora, ainda que pudesse entrar em outra. Cheguei a fazer um registro em preto e branco daquele tempo-espaço, mas tal lembrança me causava tanta angústia, que a deletei dos meus arquivos, como uma eterna editora de mim mesma. No entanto, aquela imagem me volta constantemente, porque me observar dentro de...

NARRATIVA PARA SYSYPHUS

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Morgana Poiesis e Isaac Souto. Fotografia: George Neri. Salvador-BA, 2022.   Há um ponto em que me coloco absurdamente distante da realidade para poder, ora contemplá-la, ora refleti-la, ora me refletir, mesmo, nela. É quando não apenas me identifico com minha própria vida, mas também a estranho, ou sou eu mesma esse ser que estranhamente vive e questiona o sentido de viver, quando tudo o que é valioso vem depois da necessidade essencial de sobrevivência. Este filme é um ensaio sobre viver para não apenas sobreviver. Sobre o pensamento através da linguagem, e para além dela. Sobre ser humana e existir enquanto tal, donde a arte, a filosofia, a representação simbólica. Ser livre dentro do capitalismo global seria poder escolher o que dele me convém. A ilusão de estar à sua margem não oferece liberdade de escolha. Estamos prisioneiras do liberalismo econômico, e não vislumbramos saída da mais valia, embora confabulemos economias criativas e culturas colaborativas. Embora elogi...

PARA AS ESCRITORAS DO MULHERIO DAS LETRAS: CARTA-CONVITE

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  Leitura da carta no VI Encontro Nacional do Mulherio das Letras, Rio de Janeiro, 2023. VI Encontro Nacional Mulherio das Letras, Rio de Janeiro, 2023. Caras escritoras, venho, por meio destas mal traçadas linhas, abrir meu processo de pesquisa do pós-doutorado em Estudos da Linguagem, na Universidade Federal do Mato Grosso, por ora intitulada Mulherio das Letras: correspondências. Meu primeiro contato com o Mulherio das Letras aconteceu em uma roda de conversas, com as escritoras de Brasília, na programação oficial da 10ª edição da FliPiri - Festa Literária de Pirenópolis, no interior em Goiás, em 2019. Ao encontrar um coletivo brasileiro de mulheres escritoras que o qualificavam como feminista , senti um forte convite a pertencê-lo. Tendo conhecimento do movimento nacional, passei a acompanhá-lo nas redes sociais, e a publicar minhas produções literárias nos grupos do Facebook. Me chamava a atenção o modo colaborativo como o coletivo se organizava, at...

CARTA PARA DRUMMOND

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  Querido Drummond Consegui uma licença profissional para te escrever esta carta. Mas gatos não entendem nada de profissionalismo. Deve ser por isso que amo os felinos. Desde que você partiu, meu coração ficou pequenino, do tamanho que você nasceu. Cora, sua mãe, que ainda está entre nós, deu luz à você e ao seu irmãozinho que veio primeiro, mas não sobreviveu. Então você nasceu, eu esperava outros tantos gatinhos, mas foram apenas dois. Me disseram que gatas adolescentes têm pouca ninhada. Cora miava e miava, lambendo seu filhotinho natimorto. Retirei o corpinho dele, enterrei no fundo do quintal, ao lado do pé de babosa. Logo foi a sua vez, que deu certo. Tudo isso aconteceu dentro do meu guarda-roupas, que acabou por se transformar em uma pequena maternidade. Todos os dias pela manhã, quando eu acordava, ia ver se você estava respirando. Você dormia enroscado em si mesmo, estava sempre de olhinhos fechados, mesmo quando acordado, procurando as te...

CARTA PARA UM GEÓLOGO

E. Venho, finalmente, responder à carta que você me escreveu, como colaboração técnica para a pesquisa do documentário Sysyphus, que gravamos na Gruta da Mangabeira, em Ituaçu-BA, e também na cidade de Salvador-BA. Começaria te agradecendo por sua contribuição tão valiosa, que muito nos ensina, não apenas sobre a formação geológica da Chapada Diamantina, mas também sobre os possíveis diálogos entre a arte e a ciência, em uma dimensão interdisciplinar. Em um segundo momento, justifico minha demora ao respondê-la, não apenas devido aos contratempos que tive neste último ano, mas, sobretudo, pela própria natureza das cartas , que demandam mais profundidade, e, portanto, mais tempo de maturação, ao passo do que temos experimentado com o imediatismo das redes sociais. Confesso que, me deparar com um conteúdo tão específico da geologia, também me intimidou, de uma certa maneira. Senti na pele como é receber uma carta tão contundente sobre determinado conteúdo, como ...