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CARTAS PARA UMA TRANSPOETISA*

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I Você não sabe o conforto que tem sido a sua literatura, nesse cotidiano que pesava em nossos olhos, nessa presença em uma paisagem pretérita, atualizada por novos encontros. Que bom conjugar os verbos em um novo tempo, em que as coisas acontecem aqui e agora, ainda que por nós confabuladas. É o que temos feito. Somos gratas pela concretude compartilhada dos nossos anseios, questões, afetos e imaginários. As imagens não se delineiam com a precisão das palavras, embora não queiramos reproduzir o equívoco de mais um hiato, que assim seja, pois, corpo-palavra-imagem. Lemos a sua carta diversas vezes, ela repousava em nossa cabeceira, por entre as rosas que João (Guimarães Rosa) desabrochava, antes mesmo da primavera, aos pólens de uma literatura menor e suas grandes veredas. Foi preciso uma pausa antes do café, enquanto o cuscuz denunciava a nossa identidade desde o início corrompida, foi preciso uma alteração incômoda e repetitiva dos hormônios, foi preciso ser assunto em um bot...

TRAGAR-TE

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      não tenha ciúmes das flores, meu bem elas trazem perfume à nossa alcova são rosas não indague do meu desejo me apalpe e se te parece impossível o meu sono me embale e se goza suspire pois ouço ainda o som do violino vermelho e te escrevo como um beijar-te as faces marcadas linha por linha se desfazendo ou, se prefere, um querer-te pleno à lua branca um derreter-te entre lábios famintos um queimar-te em flamas violentas um tragar-te.   Morgana Poiesis , 2010.   Imagens do filme O Violino Vermelho, François Girard, 1998.

DE UMA POLÍTICA DOS AFETOS A UM ESTADO LIVRE

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  A questão ético-política em Espinosa atravessa concepções de afeto e de Estado, tendo em vista a liberdade humana nas relações sociais. Em seu livro Ética, o filósofo holandês elabora conceitos de Deus, da natureza, da origem da alma e das afecções, bem como de suas forças, donde a servidão humana, e por fim, da potência da inteligência ou da liberdade, fundamentada nos desígnios da Razão. Propondo uma compreensão de nossos afetos a partir não apenas dos seus efeitos, mas também de suas causas e essências, Espinosa propõe gêneros sucessivos de conhecimento da alma, a partir dos quais alcançaríamos o governo de nossas emoções, a liberdade humana, fundamentais para a constituição de um Estado livre. Os conceitos esboçados na Ética são empregados por Espinosa em seu Tratado Político, texto interrompido em virtude do fenecimento do filósofo. Trata-se de um esboço sobre os princípios fundamentais de alguns gêneros de Estado, transitando por conceitos pertinentes ao campo da política, ...

CARTA PARA ARTAUD

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  Querido Artaud, (…) é madrugada e as sirenes me despertam nessa noite branca, não sei como explicar as noites brancas, senão pela ausência da lua, ela se dissolveu na imensidão do céu, não há remédio para a noite desfalecida, não há esperança para o dia que nasce, nem para a vida que passa dia após noite, há uma vazio que me toma a cada passo e escrevo para reinventar esse vazio, pois é o que me resta, escrever, em terras frias onde o corpo não dança, ele se encolhe feito caracol, estou resignada, nada me leva a nada, senão alguns sorrisos forjados, alguns elogios de quem nada sabe de mim senão por aquelas imagens produzidas pelo imaginário coletivo, histórias inventadas, as pessoas produzem a mídia e a mídia é feita de imagens, agora somos nós quem (re)produzimos essas imagens, o dia nasce e não há perspectiva outra senão essa solidão cruel e antiga, quantas vezes eu ignorei a sua face sempre presente, eu não tinha coragem de olhar nos seus olhos profundos e negr...

CARTA AO PAI

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Esta não é uma carta de amor nem de saudade, mas de lucidez e libertação. Começaria dizendo que me lembro de tudo: do seu egoísmo, das suas castrações e dos seus abusos. Lembro das histórias que escutava quando criança, dentre elas, a que você teria agredido a nossa mãe grávida de mim, na beira de um rio, sendo essa, talvez, minha primeira memória inconsciente da violência. Lembro dos seus beliscões que me deixavam marcas roxas pelos braços , durante a infância que me foi roubada com os abusos sexuais protagonizados por você. Lembro das igrejas que eu era obrigada a frequentar, apanhando em nome de Deus, ora por parte da nossa mãe, ao perceber que eu realmente não prestava atenção na missa, ora por sua parte, ao não ir àquela mesma missa que você não frequentava, provavelmente com vergonha dos próprios pecados. Lembro dos finais de semana em que você voltava bêbado para casa e violentava a nossa mãe. Lembro de quando você espancava o nosso irmão, e do ciúmes que vo...

A Estética do Silêncio

Susan Sontag inicia o seu ensaio A Estética do Silêncio, no livro A vontade Radical (1987), afirmando que toda época precisa reinventar o seu próprio projeto de espiritualidade, do qual a Arte teria sido a metáfora mais ativa, na modernidade. A autora identifica uma série de crises e processos de desmistificação da Arte, desde a unificação de numerosas e díspares atividades artísticas nessa denominação genérica, até a mudança do seu entendimento como expressão da consciência humana, para uma concepção pós-psicológica, em que ela torna-se um antídoto à capacidade de auto-alienação da mente, na afirmação de si própria. A partir desse novo mito, a arte deveria tender à antiarte, à eliminação do tema, objeto ou imagem, à substituição da intenção pelo acaso e à busca do silêncio, o que implicaria em um apelo tácito ou aberto à abolição da própria arte. Essa opção pelo silêncio, que teria sido feita por artistas como Rimbaud, Duchamp, Apollinaire, Harpo Marx, Stein, Burroughs,...

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