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KUNDALINI

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  serpente sagrada atravessa bem e mal  chi e tao  corpo e alma espiral Morgana Poiesis 2026

CARTA PARA O VELHO CHICO

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Querido Chico, Cheguei às suas margens desde ontem e cá estou, nesta cidade que você atravessa e guarda em suas curvas. Quando cheguei, fui logo até você, pedir licença para estar aqui e fazer o meu trabalho com sua benção, junto a mulheres ribeirinhas. Mulheres que me inspiram pela tamanha noção de pertencimento e identidade com sua terra. Noção que tantas vezes me falta, eu que sou uma retirante sertaneja, quase sempre em outro lugar, quase sempre so(l)zinha. Confesso que fui tomada por uma onda de melancolia, que se abranda nas conversas com minha anfitriã, Tâmara Rossene, parceira do Mulherio das Letras, que me acolheu em sua casa e em sua cidade. Também retomei minha força ao reler Gloria Anzaldúa, mulher mestiça (chicana) que das fronteiras se remete a nós, escritoras do então chamado Terceiro Mundo. Por fim, sinto-me acalantada ao encontrar essas ribeirinhas que vieram fazer nossa Oficina de Cartas, contando histórias muito parecidas com as que também vivo, como uma mulher do Br...

BAMBOLEAR

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eu bamboleio tu bamboleias nós bamboleamos juntas vamos às ruas às praças aos bailes dos mundanos Morgana Poiesis Fotografia Alva Bernadine #poesia #poema

A DITADURA DA BEZELA E SEU ÔNUS SOCIAL

“Você é bonita! A culpa é sua!” Escutei essas palavras de um colega, ao lhe relatar uma situação de assédio no ambiente profissional, há poucos dias. Este fato me remeteu a uma outra experiência semelhante, que vivi há menos de um ano. Ao voltar a ter contato com o marido de uma tia, contra a minha vontade, em ambiente familiar, acabei trazendo à tona os abusos sexuais perpetrados por ele contra mim, ainda na adolescência. Na ocasião, passei por tudo o que acontece quando uma mulher é levada a fazer esse tipo de denúncia: fui exposta e julgada pelas próprias tias como mentirosa e difamadora, o que de uma certa forma já era esperado. O que mais me chocou, no entanto, ainda estava por vir. Ao perguntar para a minha irmã se ela teria passado pela mesma situação, uma vez que chegou a morar na casa do abusador, ela respondeu que com ela não havia acontecido nada, acrescentando como argumento “eu nunca fui bonita... nunca fui interessante...”. Escutá-la foi como receber, mais uma vez, a se...

CARTA PARA VITÓRIA

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  Querida Vitória Estou de volta aos seus braços secos, atravessando suas ruas cada vez mais longas e planas, houve um tempo em que brincávamos de roda e nos pintávamos com urucum, não sei o que sinto além do que penso sobre o eterno retorno que não quero admitir, já te abandonei outras vezes e voltei para ti, como uma filha bastarda que não finge te amar, nada na vida conseguiu me reter senão esse vínculo que você me encabresta, você me parece tão burguesa, evangélica e pálida, você me conta as histórias que eu gostaria de esquecer, me olha como se pudesse saber quem sou, como se conhecesse meu passado vadio, é sempre a mesma labuta contra o mercado imobiliário que você me impõe, crescendo em cubos verticais, vangloriando-se de um suposto desenvolvimento em que não creio, não, não creio, é a mesma elite que te guarda, os genocidas que te batizaram o nome, não, não me calo, teremos que nos engolir uma a outra, e vou te morder, querida, não sou diplomata, você n...

envieZado

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  confundiram como mudez o meu silêncio como performance minha realidade como paralisia minha lentidão confundiram como disponibilidade o meu ócio como eternidade minha permanência como abnegação meu nomadismo confundiram como abdicação o meu amor como falsificação minha empatia como servidão minha lealdade confundiram como ameaça minha força como desafio minha competência como interferência minha colaboração confundiram como letramento minha inteligência como soberba minha assertividade como prepotência minha autoconfiança confundiram como atrevimento minha insubmissão como ressentimento minha indignação como terrorismo minha radicalidade confundiram como tolice minha generosidade como neutralidade meu pacifismo como dopamina minha serenidade confundiram como ingenuidade minha franqueza co...

BREVIÁRIO DE UMA ARTISTA DO CORPO

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  - cuidar-se, antes, durante e depois das performances - respirar profundamente - permitir-se estar em pausa consciente - perceber-se em silêncio, até que tudo ao redor não passe de um ruído branco - fazer com as palavras apenas o que não for possível dizer com os gestos - inscrever na realidade objetiva um discurso radicalmente pragmático - agir diretamente em meio a ideais e alienações - concentrar-se absolutamente no que está sendo feito - relacionar-se com as interferências da melhor maneira - observar as memórias manifestas - beber de fontes diversas e ser grata às fontes em que bebeu - desenvolver um método de treinamento pessoal - não se subordinar aos regimes de produção em série - ser sujeita do próprio corpo - não deixar-se objetificar pelo mercado cultural, pela pesquisa acadêmica ou por qualquer estrutura binária do capitalismo patriarcal - superar padrões de estética, comportamento e consumo - investigar as potências motoras no espaço e no tempo - ir além do erotismo,...

FITA AMARELA

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O bloco Fita Amarela surgiu em 2011, como uma iniciativa de amigas(es)(os) e artistas que desejavam celebrar o carnaval, então inexistente em Vitória da Conquista - BA. Idealizado por Morgana Poiesis, com forte apoio de Juliana Leite, que lhe batizou o nome inspirado em música homônima de Noel Rosa, o bloco reuniu foliãs e foliões de forma espontânea, através de uma nota no Facebook, convocando as pessoas que desejassem participar a irem fantasiadas para uma concentração na Praça do Gil, naquele domingo de carnaval. Com um pequeno carro de som, instrumentos musicais, confetes, serpentinas e fantasias variadas, o bloco partiu em cortejo carnavalesco até a Praça Barão do Rio Branco. O bloco Fita Amarela emergiu como uma ação autônoma, uma forma alegre e criativa de resistir na cidade. Articulado através das redes sociais e efetivado pragmaticamente nas ruas, o bloco se configurou como um movimento coletivo de ocupação lúdica do espaço urbano, sendo o estopim para o surgimento de outros...

Ser Tão

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levei uma rasteira do patriarcado e quem não? fiquei marcada como Rosa  da poesia como o braço quebrado de Maria na serra do Periperi cabecinhas de frade espetaram meu coração e cá estou eu como num deserto flor do Ser Tão Morgana Poiesis, 2026.

DIALÉTICA

a vida é assim hoje diz que não amanhã diz que sim hoje é sua amiga amanhã te faz figa hoje tem quem ama amanhã Pachamama hoje é fiel amanhã lua de fel sigo minha sina se não for lá embaixo será logo ali acima Morgana Poiesis, 2026

AMOR E LIBERDADE: uma breve reflexão

Pensei em nomear este texto com o “amor livre”, tão aclamado na contemporaneidade. No entanto, essa composição me parece inviável, pois não somos assim tão amorosos, tampouco libertários. Aliás, eu que sempre busquei referências para uma liberdade mais prática do que discursiva, ao menos na filosofia ocidental, só a encontrei enquanto atitudes eminentemente individuais. Ainda carecemos de uma perspectiva social libertadora, cujas nuances têm sido desveladas pelas epistemologias decoloniais. Nos últimos anos, tenho me deparado com reiteradas propostas de “relacionamentos abertos”, atualmente denominados “não monogâmicos”, de modo que precisei sistematizar minha resposta. Eu já fui uma adepta do “amor livre”, aos vinte anos, quando esse debate não estava em voga. E mesmo sendo previamente acordado, tive como retorno um discurso de ódio propagado contra mim aos quatro cantos do país, pelo mesmo homem que me fez essa proposta, diga-se, um ativista de e...

UM RELATO DE SORORIDADE NO DIA DAS POETAS

Gostaria de relatar mais um caso de sororidade do que de assédio. Participo de cinco grupos de literatura pelo whatsapp, apenas cinco, os quais considerava bem selecionados. Sendo quatro exclusivos de escritoras, e um heterogêneo, denominado Grupo de Escritores Conquistenses, do sertão baiano, de onde venho. Fui convidada por uma das escritoras desses grupos exclusivos, a colaborar com uma coletânea que está sendo organizada pelo Dia dos Finados. Assim, compartilhei com ela e demais grupos, no exercício democrático da literatura a que nos propomos, um texto denominado Carta para a Madame Silenciosa, que escrevi há 10 anos atrás, na qual elaborava meus lutos pelo encantamento de pessoas que me constituíram. Compartilhei também um áudio em que leio a carta sussurrada, de forma quase silenciosa, e não eloquentemente, seguindo os tons da performance artística Poemas e Sussurros, que desempenhava na mesma época. Então, um dos escritores desse único grupo heterogêneo que ainda esperançava pa...

SOBREVOAR

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Não escrevo poemas de amor Nem mesmo cartas aplacam minha dor caí de cima  de um sonho  muito alto por ver as flores que brotam no asfalto mas o tempo serenou meu coração aprendi  a dizer sim a dizer não que o salto não precisa  ser fatal sobrevoar pra muito além  do bem e do mal                              Morgana Poiesis, 2025.

REFLEXO

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não te assustes se incorporo  a lua crescente se de poesia viro mulher tão de repente com a sede de quem atravessou desertos bebendo em fontes de saberes mais incertos trilhando rumos  entre sonhos descobertos também o sol de tão longínqua vi mais perto Morgana Poiesis, 2025

CARTA PARA UMA OUTRA MULHER

É com grande satisfação que atendo ao seu chamado, a despeito daquela carta que você me escreveu, das intermitências de um Vale. Compreendo sua postura e escuto as outras vozes que te habitam. Não tenha dúvida de que meu silêncio foi um tipo de resposta às suas palavras e, por ironia, uma troca de lugares. Não almejaria ser o Sol do seu sistema criativo, nem esperei que se voltasse para mim com os olhares de uma deusa apaixonada pela própria criatura. Sabemos que precisamos uma da outra para compartilharmos as nossas questões, desde as mais específicas até as mais diversas. Os tormentos que te trazem me levam a romper com os limites do silêncio. O que tenho para te dizer é aquilo que, há muito, você já percebeu em suas experiências, cuja consciência se ampliara no encontro com as reflexões de outras escritoras que me antecederam. Pois bem. Saiba que você não precisa corresponder às expectativas daqueles que perverteram sua liberdade. Que não deve permitir, em nome dela, ne...

IV CARTA A LA ABUELA

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  Vó, então… vovô partiu… e fico me perguntando se ele foi ao seu encontro , a quem tanto chamava em seu leito de morte-vida-morte… Será que, no final de tudo, viramos constelações? Desejo que descansem em paz, o que nunca tivemos aqui na Terra. Como de nada sabemos, e eu ainda em pouco acredito, só nos resta mesmo aceitar. Até porque duas vidas tão bem vividas, o que mais merecem é ser descansadas. Nos resta também conduzir nosso legado com sabedoria , o que me parece improvável. Vó, naquele domingo despertei às 4h da madrugada, o horário dos espíritos, dizem os religiosos, o horário dos deprimidos, dizem os cientistas. Para mim é o horário de acordar junto com os pássaros. Chovia e saí fugindo dos fantasmas da noite. Mas o tempo não me deixou seguir adiante, voltei para casa, resfriada e sem o celular, que de tão molhado quanto eu, ficou afogado dentro do arroz, uma técnica infalível. No dia seguinte tive notícias do mundo e soube de tudo....

Somos Naturaleza

Catálogo da mostra Somos Naturaleza, no Festival en mi balcón, produzido pela artista e pesquisadora Anita Araújo, em Buenos Aires, Argentina, 2021. https://somosnaturaleza.my.canva.site/

CAMPO MINADO ou POR QUE ESCREVO PARA MULHERES?

  Muitas vezes sou questionada sobre restringir minhas correspondências às mulheres. Em primeiro lugar, como escritora, sou livre para escolher minhas destinatárias. Mas não foi sempre assim, e venho trazer alguns relatos desse percurso. Quando iniciei meu projeto epistolar, há exatos 10 anos, tive minha primeira carta, declaradamente pública, censurada pelo suposto destinatário. Apesar disso, consciente dos meus propósitos literários, rompi o veto do censor, e resolvi publicá-la como Esquizocarta ou Carta para um Anônimo (que hoje seria Ninguém), dando início ao que se tornaria uma longa caminhada. Outra vez, recebi uma carta de um poeta, destinada a mim, porém, enviada para um amante, com cópia para ele, como se fosse uma petição. Novamente fiquei furiosa ao ter minha autonomia sendo colocada em xeque pelo acordo tácito entre os homens, de que eu poderia ser representada por quem me acompanhava naquele momento. Eventualmente, por questões estritamente profissionais, sou levada a ...

PLACENTA

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  Semana pela luta antimanicomial, Vitória da Conquista-BA, 2014. Mostra de Performance. Galeria Canizares. Salvador-BA, 2014. Link para vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=oNDFTP0lH-A&feature=youtu.be

DIÁRIO DE UMA PÓS-DOUTORANDA

Querido diário, é madrugada e tenho sido despertada por muitos pesadelos. Te escrevo porque, neste momento, não tenho correspondentes. Você sabe que sempre fui uma escritora de diários, até encontrar, na carta, uma outra da outra da outra, ainda que com-fabulada. Não é que você seja nada ou ninguém. Mas todos sabem que escrever em um diário é como se fosse para si mesma. Sei que você vai compreender meu jogo de palavras. Você lembra daquele corredor silencioso, onde fiz a entrevista do pós-doc? Eu estava em uma selva de pedras, com-correndo a dois processos seletivos, ao mesmo tempo. Sim, eu estava desesperada para me libertar de uma condição profissional opressora, ainda que pudesse entrar em outra. Cheguei a fazer um registro em preto e branco daquele tempo-espaço, mas tal lembrança me causava tanta angústia, que a deletei dos meus arquivos, como uma eterna editora de mim mesma. No entanto, aquela imagem me volta constantemente, porque me observar dentro de...